Joel Stone e Fábio no Clube do Vinil

08/10/2009

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Dia desses, de passagem pelo sebo Baratos da Ribeiro, em Copa, esbarrei sem querer com seu dono, Maurício Gouveia. Digo sem querer porque você encontra o Maurício em todas as festas, shows e exposições espalhadas pela cidade, mas raramente em sua própria loja, salvo quando tem um evento. E, coincidentemente, mais tarde haveria um, em edição extraordinária, o Clube do Vinil — uma reunião de entusiastas de LPs e aberta a quem chegar. Tradicionalmente as quintas, desta vez seria numa segunda-feira por um bom motivo: Joel Stone, dono do sebo nova iorquino Tropicália in Furs, estava no Brasil. Situado no East Village, o espaço é especializado em música brasileira. O único em Nova Iorque, segundo seu dono. O que, eu imagino, acaba virando uma espécie de consulado para expatriados saudosos.

Joel chegara há poucos dias no Rio em virtude do lançamento de Beyond Ipanema: Ondas brasileiras na música global, um documentário que fala sobre o interesse (e a curiosidade, porque não?) que a música brasileira desperta no mundo, de Carmen Miranda aos fenômenos recentes como o Cansei de Ser Sexy e o funk carioca.

O filme em si falha em simplesmente ignorar vários representantes tupiniquins que despontaram na gringa (como o Sepultura, por exemplo), mas vale, dentre outros motivos, para ouvir o David Byrne dizendo que poucos países podem se gabar de ter a cultura como principal item de exportação. Wow! Não sei quanto a você, mas eu prefiro ouvir isso a sediar as olimpíadas.

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Pois bem. O Joel Stone é um dos entrevistados deste documentário. Além disso, esse paulistano de 36 anos está prestes a lançar uma coletânea só com compactos raros produzidos no Brasil em fins da década de 60, início de 70. O título não poderia ser mais direto: Brazilian Guitar Fuzz Banana. Com capa em 3D, a coletânea contará com nomes pouco (ou nada) conhecidos mesmo entre nós, como: Tom & Sérgio, Célio Balona, Mac Rybell, Os Falcões Reais, Banda de 7 Léguas, Tom & o Colorido, Marisa Rossi e Fábio. Tudo lançado originalmente há mais ou menos 40 anos.

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Enfim, ao chegar no Clube do Vinil, havia um participante completamente inesperado. Um dos artistas a ser relançado na coletânea estava presente. “Conhecido” unicamente como Fábio (houve um tempo em que artistas não precisavam de sobrenomes, sabe?), este respeitável senhor gravou em 1968 um EP em parceria com Carlos Imperial chamado LSD (Lindo Sonho Delirante),  hoje clássico absoluto da psicodelia brasileira. E lá estava ele, para surpresa geral — inclusive do Joel –, recebendo uma justa e improvisada homenagem pela ida ao evento.

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"Lindo Sonho Delirante"

Após a discotecagem, sentei com o Joel num cantinho nos fundos da Baratos da Ribeiro e batemos um rápido papo.

SEDATIVO – Você iniciou a loja com seu acervo pessoal?

Joel Stone – Não, fui adquirindo gradativamente. Cheguei sem nada, meus discos tinham ficado aqui no Brasil. Mais tarde, minha mãe foi me enviar os discos, mas não embrulhou direito e minha coleção particular chegou toda quebrada. Não gosto nem de lembrar.

SEDATIVO – Qual o típico perfil do comprador que vai à sua loja?

Joel Stone – Normalmente é americano, japonês, alemão… Brasileiro só vai pra trocar idéia. “Pô, que legal a sua loja. Mas você tem alguma coisa do Sonic Youth?” Eu pego o disco e o cara fala: “Caralho, o vinil é vermelho, que foda!” (rs)

SEDATIVO – Mas o que exatamente os gringos procuram?

Joel Stone - Bom, vai muito produtor, gente procurando beat… Mas o curioso é que eles não sabem exatamente o que querem! Olham a foto na parede do Sivuca ou do Hermeto Pascoal e perguntam: “Mas o que é isso?”.

E é estranho pra gente por que tem muita cara que vai lá atrás do Arthur Verocai, por exemplo. Mas o engraçado é que o cara não sabe quem é Caetano ou Gil. Como o cara vai ouvir Verocai se não conhece Caetano? Tem mais um degrau ai, ele está pulando muito rápido.

SEDATIVO – Você faz idéia de onde vem esse interesse pelo Verocai?

Joel Stone – Não sei. Mas é hype. Daí eu tenho que explicar que o cara tem apenas um disco solo, raríssimo, mas por outro lado existem duzentos discos produzidos por ele. A relação dos gringos com a nossa música é diferente. Quando um artista como Verocai chega lá, se transforma em outra coisa.

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SEDATIVO – E sobre a coletânea, os fonogramas são os originais?

Joel Stone – São. Fomos para um estúdio em Los Angeles limpar todos os ruídos. Existe tecnologia para isso. É um projeto caro, com capa em 3D. Terá um livreto contando, em inglês e português, todas as histórias que eu consegui reunir dos 16 artistas.

SEDATIVO – Como ficam as questões legais, como o direito autoral etc?

Joel Stone – Normalmente, os produtores que lançam compilações como essa não se expõem. Só que no meu caso terá meu nome e o endereço da minha loja. Eu tenho um advogado que já vai deixar separado a grana, caso alguém se manifeste como representante da obra. Não estou me escondendo, mas por outro lado não tenho como achar todos os autores.

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SEDATIVO – Achei incrível o Fábio aparecer aqui hoje…

Joel Stone – Aconteceu o seguinte: Dei uma entrevista ao Village Voice contando sobre projeto e teve um brasileiro que leu. O cara é amigo da filha da Marisa Rossi. Só que eu estava aqui no Brasil e quando cheguei em Nova Iorque tinha um e-mail da Marisa Rossi para mim! Ela disse: “oi, fiquei sabendo que você está aqui no Brasil, quero muito te conhecer”, mas eu já estava lá! E pra fechar, ela terminou o mail dizendo: “Para Joel, um amigo que eu não conheço”. E voltei na mesma hora para o Brasil.

Tinha um show da filha dela na Barra, aqui no Rio, e marcamos de nos encontrar. Mas o meu vôo atrasou e eu fiquei preso no aeroporto, muito angustiado. Quando cheguei lá o show já havia acabado e a Marisa Rossi tinha ido embora. Na mesma hora a filha ligou e a chamou de volta. Durante este tempo de espera a menina me disse: “Você não faz idéia do quanto tem feito minha mãe feliz”.

Quando ela chegou, muito gentilmente me convidou para irmos à sua casa. Chegando lá, ela me pediu pra ouvir a música remasterizada. Quando tocou, ela começou a cantar e dançar na minha frente! Não agüentei e caí no choro. Foi muito emocionante assistir àquilo.

Passou um tempo e ela mesma ligou para o Fábio e disse: “Fábio, esse garoto achou a gente!”. Depois ela me deu o telefone dele, mas eu não conseguia falar, o número estava errado, sei lá.

Daí quando eu cheguei hoje aqui me falaram: “Tem uma surpresa pra você”. Nem passou pela minha cabeça o que era. Quando entrei aqui, estava o Fábio sentado naquele cantinho. Reconheci na hora. O Fábio e a Marisa tiveram um caso e eu não sabia!

SEDATIVO – Isso depois que você já havia escolhido os artistas para a coletânea?

Joel Stone – Pois é, os caras do Village Voice pilaram. Depois que eu fui descobrir que o autor da música da Marisa Rossi era o próprio Fábio, que já estava na minha seleção. Ele fez uma música pra ela cantar dizendo que iria protegê-la num cinturão de fogo. Mas parece que não funcionou, ela o trocou por outro cara…

Fotos: Pirikito Sem Asa

Escute no podcast do Clube Vinil a discotecagem do Joel Stone nessa noite e seus comentários sobre as músicas.

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8 Responses to “Joel Stone e Fábio no Clube do Vinil”

  1. Renata Braga Says:

    O Fabio, ou melhor, Juancito, era amigo do Tim Maia.Na Biografia do Tim escrita pelo Nelson Motta, ele fala desse disco…

  2. Andrew Says:

    Olha, eu vi Beyond Ipanema e acho que o filme não “falha” em nada.Primeiro que foi um trabalho de
    de amor e produzido sem dinheiro do governo como todos os documentarios brasileiros e depois independente de colocar todos os artistas brasileiros ou nao no filme(tarefa impossivel em 85 minutos) o filme fala da paixao do americano pela musica brasileira e da comunicação entre musicos de diferentes paises cque acaba criando novas texturas musicais. Alem de tudo oo file e muito divertido e bem feito e inclusive apresentou o Joel para o mundo aleio aos colecionadores de vinil. Entao sua critiva foi boba e pouco criativa. E

    • André Mansur Says:

      Deixa eu ver se entendi: você está querendo me convencer de que, por ser “um trabalho de amor e produzido sem dinheiro do governo” o isenta de ser falho? Acho louvável que se produza um documentário como este, ele tem bons momentos, mas sério que você acha isso?

      Lógico que falha em não falar do Sepultura, só pra usar o mesmo exemplo, talvez por ser o mais emblemático. Os caras são conhecidos no mundo todo, venderam milhões, foram headliners dos maiores festivais de metal do mundo durante vários anos. Você pode até não gostar do Sepultura (como, aliás, eu não gosto) mas desconsiderar sua relevância ou simplesmente ignorá-la num documentário que quer mostrar o interesse dos gringos na nossa música é um erro imperdoável.

      E realmente, como você mesmo afirma, colocar TODOS os artistas brasileiros no documentário é tarefa impossível, independente de sua duração.

      Pô, e a minha “critiva” que é boba? Logo a minha?

  3. Maurício Says:

    Passei por aqui pra avisar a galera que o set que o Joel fez no Clube do Vinil já está disponível para download, no site do PodCast.

    Mas vou aproveitar pra entra na polêmica.

    O Andrew elogiou o filme, questionando as críticas que o André fez ao filme. Pois bem, estive na sessão da estréia carioca (no Odeon, num sábado), com um grupo de gente bem entendida tanto de cinema quanto de música, e nossa decepção foi geral.

    Se o filme se chamasse algo como “NY e o Brasil: um caso de amor”, faria mais sentido. O problema é que o título e o roteiro, e mesmo a edição do filme, sugerem uma tese que eles não conseguem provar. Não mostram o crescimento do interesse pela música brasileira em vários lugares do mundo, pois ficam praticamente em Nova Iorque apenas. E não conseguem criar pontos de contato entre os artistas de quem falam. Fica tudo muito solto, um bando de artistas brasileiros largados por lá, sem nem mesmo terem reverências em comum…

    Jornalisticamente, também é pobre em informações quando fala da bossa nova e do tropicalismo (com tudo o que deve haver arquivado nas emissoras de televisõs, é mesmo necessário ouvir o mala do Gilberto Gil pós-ministério ruminando o seu deslumbramento com a modernidade e a cultura “periférica”?).

    No entanto, gostei de assistir e achei que ele fica bem interessante quando trata de lances mais “nova-iorquinos”, em especial a boate com as noites de forró (onde nasceu o Forró In The Dark, tão incensada que hoje um dos caras tá na nova banda do Thom Yorke) e o colégio público onde o Professor de Música montou uma bateria de Escola de Samba.

    Um abraço a todos.


  4. [...] você não leu a entrevista que eu fiz com Joel da última vez que ele veio ao Brasil ou se nem mesmo viu a matéria de capa do Segundo Caderno do [...]


  5. Perfeita a compilação.
    Ótima a matéria.

    Meus sinceros parabéns para todos.


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