Habitualmente avesso às entrevistas, Prince apareceu nesta semana em um talk show americano para divulgar seu mais recente CD, o duplo (e ótimo) Lotus Flower.  E, mantendo a fama de excêntrico, fez algumas declarações no mínimo curiosas. Eu destaco uma em particular:

“Eu nunca falei sobre isso antes, mas eu era epiléptico e costumava ter crises quando jovem. Meus pais não sabiam o que fazer (…) Um dia eu estava andando com minha mãe e disse: ‘Mãe, eu nunca mais ficarei doente’ e ela perguntou: ‘Por quê?’ e eu respondi: ‘Porque um anjo me disse’.”

 

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Que Andy Warhol estampou uma banana na capa de um dos discos mais influentes da história do rock,  todo mundo sabe.  Que ele colocou um zíper de verdade na capa de Sticky Fingers dos Stones, também. Agora, que ele ilustrou capas de jazzistas como Count Basie, Kenny Burrell ou Johnny Griffin quase ninguém lembrava.

 

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Tudo começou quando o professor da Universidade de Quebéc e colecionador de discos Paul Maréchal encontrou um álbum de Paul Anka, de 1982, num sebo. Para a sua surpresa o disco possuia a assinatura de Warhol nos créditos. Intrigado com a descoberta, Maréchal levou o disco para casa. Não demorou muito para perceber que ele não era o único que desconhecia a existência de capas de discos criadas por Andy, além das citadas aqui no parágrafo acima.

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Paul Maréchal entrou em contato com o Andy Warhol Museum para saber se havia outras capas feitas por Andy. Sim, havia. Segundo o museu dedicado ao artista, existia um total de 23 capas catalogadas. Mas quando Maréchal começou a vasculhar sebos no mundo todo em busca desses álbuns ele descobriu que mais 28 discos, além das reconhecidos oficialmente, foram trabalhadas graficamente pelo papa da pop art.

 miguelbose_833Para organizar uma exposição em Marselha e um convite do Montreal Museum of Fine Art para a publicação de um livro foi um pulo. Andy Warhol: The Record Covers, 1949-1987 trás 51 capas de discos de artistas tão díspares quanto Diana Ross, Aretha Franklin e até Tchaikovsky, além de tantos outros menos conhecidos.

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Aqui no site da Amazon você pode adquirir esta preciosidade por 47 dólares, mas se procurar um pouco mais, você encontrará mais barato.

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Coachella, domingo passado

“One day we’re gonna live in Paris / I promise / I’m on it”


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Billy Corgan autorizou visitas diárias em seu vídeo blog. Os interessados poderão assistir a sua labuta no estúdio e saberão como ele lida com o processo criativo. Ótimo, mas é só pra quem pagar. Por quarenta dólares você pode adquirir o pacote de 3 meses, sendo atualizado semanalmente com 25 minutos de imagens. Mas não ligue ainda! Além disso, essas imagens poderão ser usadas em um possível “filme artístico” no futuro. Bem, francamente, acho ótimo todo o tipo de aproximação entre músicos e ouvintes que a web proporciona, mas existem pessoas que correm para o lado errado. E Corgan é uma delas.

É claro que isso não vai funcionar! A internet é território livre e ninguém quer pagar pela informação. Isso é fato consumado. Quer ver um exemplo que a gente pouco se dá conta? Milhões de pessoas hoje não se importam em pagar 15 centavos por uma única mensagem enviada pelo celular, mas se recusam a desembolsar 0,10 por uma matéria lida num jornal. Percebe? Não tem mais volta.

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Billy Corgan escreveu ontem no site da banda: “Estou contente por fazer esta oferta a qualquer um que possa se interessar pelo o que acontece por trás da cortina mágica. O objetivo é inspirar um diálogo interativo que ajudará na formação do trabalho”, e conclui com a cara mais lavada do mundo: “a meta é criar um modelo de trabalho que não seja motivado pelo lucro, mas sim pela informação”. Então, por que cargas d´água não disponibiliza as imagens de graça? Ele mesmo já admite a possibilidade disso não dar certo, alertando que se não houver demanda, o projeto será abandonado. Há poucas semanas ele processou diversas rádios por questões relativas aos direitos autorais. A mesma ladainha de sempre. Até quando esses caras vão insistir no imbróglio?

O baterista Jimmy Chamberlin, único membro da formação original que ainda aturava o temperamento explosivo de Billy Corgan, abandonou a banda mês passado. Tudo isso desgasta cada vez mais a imagem – que nunca foi boa — de Corgan. Mas no fim das contas só uma coisa realmente me interessa: que ele volte a fazer música relevante como fazia há 15 anos. O resto, por enquanto, eu ignoro. Sumariamente.

O Moby anunciou esta semana o término do seu novo álbum, chamado Wait For Me. Para divulgar o primeiro single, a instrumental e climática “Shot in the Back of the Head”, o carequinha-vegan chamou David Lynch para criar o clipe, após assistir a uma palestra do cineasta sobre “ser criativo sem se preocupar com as pressões da indústria”. Ele disse ao Lynch (que nunca havia se aventurado em dirigir clipes): “Por favor, faça o que você quiser”. E o resultado foi esta ótima animação em P&B.

Não é a primeira vez que Moby se aproxima da obra de Lynch. Em 1992, o single “Go”, já contava com samples de Angelo Badalamenti, autor da trilha de Twin Peaks, fenomenal série de David Lynch.

Está rolando até um vídeo de uma suposta jam dos dois, mas pra mim Lynch está ali só fazendo cena.

Segundo Moby, em seu blog do Myspace, o novo trabalho terá vários amigos “relativamente desconhecidos” para os vocais. “Quase sempre é melhor trabalhar com eles do que com rockstars”, alfineta. Ele afirma também que o disco será “mais tranqüilo, melódico, choroso e bem mais pessoal que os discos anteriores”.

Com lançamento previsto para 30 de junho, o álbum contem 16 faixas que foram gravadas em Nova Iorque, em seu estúdio caseiro e mixadas por ele em parceria com o produtor Ken Thomas.

Um adendo: especula-se que David Lynch fará uma participação no próximo álbum do Danger Mouse. Se for verdade, boa coisa virá dessa inusitada parceria.

Ah, Moby também se rendeu ao mundo do twitter há apenas 5 dias…

 

Fotos Luisa mandou um beijo

O chamado rock brasil

Sempre questionei a afirmação de que todo rock feito no Brasil é, por excelência e direito, rock brasileiro. Utilizam o argumento simplório de que a música foi criada dentro do nosso espaço geográfico e que devido a isso, por si só, caracteriza um estilo musical. Não me convence. Esquecem, inclusive, que a cada dia essa definição perde força e sentido, já que as fronteiras culturais se situam em zonas difusas.

Por outro lado, acho um tanto cínico dizer que uma determinada banda de rock é mais brasileira do que outra só porquê tem um pandeirinho acompanhando uma levada sincopada. Mas, “Minha Menina”, dos Mutantes, é muito mais “brasileira”, do que qualquer música do Barão Vermelho, por exemplo. Em suma; entendo a bandeira levantada por alguns, mas não acho que seja fácil catalogar.

Cariocando a música

Falando especificamente do Rio de Janeiro, sempre houve tentativas de cariocarmos o rock. A imprensa de 25 anos atrás cunhava, pejorativamente, de rock de bermudas toda a produção que saísse do Rio. Era um contraponto em relação ao rock feito em São Paulo, mais sombrio e sisudo. O Rio era (era?) mais galhofa em todos os sentidos. Evandro Mesquita até hoje é usado na publicidade como o nativo boa praça, que todo mundo quer ser amigo, pra jogar futevolei na praia. A própria Fernanda Abreu, também egressa da Blitz, virou a garota carioca de suingue sangue-bom, seja lá o que isso significa. Os Picassos Falsos, ainda na década de 80, deram um passo mais largo, lançando álbuns emblemáticos como Supercarioca, com letras que falavam da relação asfalto-morro, numa época em que poucos no rock se aventuravam nesse tema.

Ainda nessa época apareceu bastante gente envolvido “na causa”, como o Fausto Fawcett (ninguém explicou Copacabana melhor que ele, sejamos francos) e o lendário Black Future. Todos esses nomes nivelaram uma estrada de chão para que depois fosse pavimentada pelo Planet Hemp, pelo Rappa e, sobretudo, pela carreira solo de Marcelo D2.

Leveza indie

Já o indie rock (e quando digo indie, me refiro ao que há bem pouco tempo atrás era chamado guitar-band ou rock alternativo, expressões que hoje já não dizem muita coisa). Enfim, o indie rock nunca chegou a ser articular numa tentativa de soar brasileiro, tampouco carioca. Talvez pela risível vontade de algumas bandas de soarem londrinas a todo custo. Por tudo isso, vejo com bons olhos o novo disco da Luisa Mandou um Beijo — seu título é homônimo, assim como o anterior.

Fotos Luisa mandou um beijo

O som é um indie rock mais arejado, praiano mesmo, quase ensolarado. Soma-se a isso letras em português, com ótimas sacadas e brincadeiras lingüísticas que esbarram no surrealismo. Contudo, as músicas têm uma brasilidade que você não identifica de cara. Percebe-se que há um sutil flerte com a MPB, mas você não saca muito bem de onde ele vem. E é justamente esse o grande mérito da banda.

Buñuel no Posto 9

Se no primeiro disco todas as faixas haviam sido compostas pelo guitarrista Fernando Paiva, desta vez o álbum foi loteado entre os membros, sem com isso perder sua unidade — o que é claramente um sinal de amadurecimento. A temática litorânea permeia boa parte do disco, como alguns títulos entregam: “Memórias da Praia”, “Mar sem Sal”, “Peixe Pequeno” e “Mar Bravio”.

Além disso, as letras continuam simples e ricas em imagens, onde personagens se ocupam de tarefas banais, como em “Lídia Traída”:

“Eu não sei conviver com pessoas distraídas / Bem-me-quer / mal-me-fez / já passou das três / Conceição, por favor, unte o forno com limão e açafrão / e um cordão de samalaquê”

Ou traçam diálogos desconcertantes, a exemplo de “A obsessão de Sueli”:

“Convincente soa o seu sofismo incandescente / Assuma, Sueli, essa sua obsessão pelo som dos ésses / Nos sonetos, nas sirenes, nas sanfonas, nos soluços e nos sinos de Ceilão”.

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O trompete, tocado pelo Shockbrou – eu adoro esse nome, carioquíssimo — que às vezes faz as canções ficarem com uma cara meio Belle & Sebastian, pode soar monocórdico nos fraseados, mas tem uma importância chave na banda, pois vem por fora, costurando as canções. Frágil, e por vezes dissonante, a voz da Flávia Muniz também merece um destaque, pois ajuda bastante na definição do estilo da banda. Ela, diga-se, vem de uma escola emepebista e é até pouco afeita ao rock – o que de certa forma explica muita coisa, já que não foi contaminada pelos maneirismos frequentemente impostos pelo estilo.

A banda é liderada pelo guitarrista Fernando Paiva. Boa parte de todo o conceito da Luisa veio desse cara, que é formado em jornalismo e já lançou um livro muito bacana, numa onda realismo fantástico, chamado Carta Para Ana Camerinda.

Surgida em 1998, a Luisa Mandou um Beijo recebeu este nome para remeter a sensações como a saudade, o afeto e a melancolia. Palavras, aliás, muito bem sugeridas na concepção gráfica deste novo disco, criada a partir dos desenhos da artista plástica paulistana Vânia Mignone.

Divulgo, em primeira mão, o novo clipe da banda para a música “Mar Sem Sal”. Filmado ironicamente no litoral santista, o clipe foi dirigido por Julian Campos e Nádia Mangolini.

Baixe aqui o disco da Luisa Mandou um Beijo

Fotos da banda por Diego Gonzales