Luisa Mandou um Beijo

19/04/2009

Fotos Luisa mandou um beijo

O chamado rock brasil

Sempre questionei a afirmação de que todo rock feito no Brasil é, por excelência e direito, rock brasileiro. Utilizam o argumento simplório de que a música foi criada dentro do nosso espaço geográfico e que devido a isso, por si só, caracteriza um estilo musical. Não me convence. Esquecem, inclusive, que a cada dia essa definição perde força e sentido, já que as fronteiras culturais se situam em zonas difusas.

Por outro lado, acho um tanto cínico dizer que uma determinada banda de rock é mais brasileira do que outra só porquê tem um pandeirinho acompanhando uma levada sincopada. Mas, “Minha Menina”, dos Mutantes, é muito mais “brasileira”, do que qualquer música do Barão Vermelho, por exemplo. Em suma; entendo a bandeira levantada por alguns, mas não acho que seja fácil catalogar.

Cariocando a música

Falando especificamente do Rio de Janeiro, sempre houve tentativas de cariocarmos o rock. A imprensa de 25 anos atrás cunhava, pejorativamente, de rock de bermudas toda a produção que saísse do Rio. Era um contraponto em relação ao rock feito em São Paulo, mais sombrio e sisudo. O Rio era (era?) mais galhofa em todos os sentidos. Evandro Mesquita até hoje é usado na publicidade como o nativo boa praça, que todo mundo quer ser amigo, pra jogar futevolei na praia. A própria Fernanda Abreu, também egressa da Blitz, virou a garota carioca de suingue sangue-bom, seja lá o que isso significa. Os Picassos Falsos, ainda na década de 80, deram um passo mais largo, lançando álbuns emblemáticos como Supercarioca, com letras que falavam da relação asfalto-morro, numa época em que poucos no rock se aventuravam nesse tema.

Ainda nessa época apareceu bastante gente envolvido “na causa”, como o Fausto Fawcett (ninguém explicou Copacabana melhor que ele, sejamos francos) e o lendário Black Future. Todos esses nomes nivelaram uma estrada de chão para que depois fosse pavimentada pelo Planet Hemp, pelo Rappa e, sobretudo, pela carreira solo de Marcelo D2.

Leveza indie

Já o indie rock (e quando digo indie, me refiro ao que há bem pouco tempo atrás era chamado guitar-band ou rock alternativo, expressões que hoje já não dizem muita coisa). Enfim, o indie rock nunca chegou a ser articular numa tentativa de soar brasileiro, tampouco carioca. Talvez pela risível vontade de algumas bandas de soarem londrinas a todo custo. Por tudo isso, vejo com bons olhos o novo disco da Luisa Mandou um Beijo — seu título é homônimo, assim como o anterior.

Fotos Luisa mandou um beijo

O som é um indie rock mais arejado, praiano mesmo, quase ensolarado. Soma-se a isso letras em português, com ótimas sacadas e brincadeiras lingüísticas que esbarram no surrealismo. Contudo, as músicas têm uma brasilidade que você não identifica de cara. Percebe-se que há um sutil flerte com a MPB, mas você não saca muito bem de onde ele vem. E é justamente esse o grande mérito da banda.

Buñuel no Posto 9

Se no primeiro disco todas as faixas haviam sido compostas pelo guitarrista Fernando Paiva, desta vez o álbum foi loteado entre os membros, sem com isso perder sua unidade — o que é claramente um sinal de amadurecimento. A temática litorânea permeia boa parte do disco, como alguns títulos entregam: “Memórias da Praia”, “Mar sem Sal”, “Peixe Pequeno” e “Mar Bravio”.

Além disso, as letras continuam simples e ricas em imagens, onde personagens se ocupam de tarefas banais, como em “Lídia Traída”:

“Eu não sei conviver com pessoas distraídas / Bem-me-quer / mal-me-fez / já passou das três / Conceição, por favor, unte o forno com limão e açafrão / e um cordão de samalaquê”

Ou traçam diálogos desconcertantes, a exemplo de “A obsessão de Sueli”:

“Convincente soa o seu sofismo incandescente / Assuma, Sueli, essa sua obsessão pelo som dos ésses / Nos sonetos, nas sirenes, nas sanfonas, nos soluços e nos sinos de Ceilão”.

luisacapa1

O trompete, tocado pelo Shockbrou – eu adoro esse nome, carioquíssimo — que às vezes faz as canções ficarem com uma cara meio Belle & Sebastian, pode soar monocórdico nos fraseados, mas tem uma importância chave na banda, pois vem por fora, costurando as canções. Frágil, e por vezes dissonante, a voz da Flávia Muniz também merece um destaque, pois ajuda bastante na definição do estilo da banda. Ela, diga-se, vem de uma escola emepebista e é até pouco afeita ao rock – o que de certa forma explica muita coisa, já que não foi contaminada pelos maneirismos frequentemente impostos pelo estilo.

A banda é liderada pelo guitarrista Fernando Paiva. Boa parte de todo o conceito da Luisa veio desse cara, que é formado em jornalismo e já lançou um livro muito bacana, numa onda realismo fantástico, chamado Carta Para Ana Camerinda.

Surgida em 1998, a Luisa Mandou um Beijo recebeu este nome para remeter a sensações como a saudade, o afeto e a melancolia. Palavras, aliás, muito bem sugeridas na concepção gráfica deste novo disco, criada a partir dos desenhos da artista plástica paulistana Vânia Mignone.

Divulgo, em primeira mão, o novo clipe da banda para a música “Mar Sem Sal”. Filmado ironicamente no litoral santista, o clipe foi dirigido por Julian Campos e Nádia Mangolini.

Baixe aqui o disco da Luisa Mandou um Beijo

Fotos da banda por Diego Gonzales

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5 Responses to “Luisa Mandou um Beijo”

  1. Claudix Says:

    AEEEEEE!!!! Ate q enfim, juntou-se aos bons >:))))


  2. primeiro: amo ‘Luisa”!
    segundo: há tempos tentava pensar em como descrever essa banda que eu tenho o prazer de ter descoberto há muito tempo através do Fernando em seu blog “máquina de escrever”, e você o fez de uma forma tão deliciosa de ler.
    Bela inauguração, ganhou uma seguidora =)

  3. José Carlos Says:

    Acabo de dar uma geral no blog e gostei muito, André. Em particular, este post (que leio ao som de HOJE O MAR DANÇOU NO CÉU, remanescente do LMUB no meu tocador de mp3) tá lúcido e fluido como poucos textos que leio por aí sobre essas queridas bandas desconhecidas do público em geral. Confesso que me surpreendi com o post depois de ouvir vc falar no sábado no ICBEU sobre Nirvana, The Jesus and Mary Chain, Laura Palmer e Stone Roses. Nota 10!
    Um abraço,
    JC

  4. André Mansur Says:

    Obrigado, JC. Precisamos marcar um papo com mais calma, não é verdade?


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