Fim de jogo

27/05/2009

Poucos dias antes de iniciar este blog, eu recebi um e-mail do Beni Borja onde ele questionava a importância de existir alguém apontando o que deve ser prestado a atenção em um mar de infinitas opções que é a web.  Guardei este mail porque pensei em mais tarde respondê-lo, o que acabei não fazendo.  Então, para não deixá-lo passar em branco, divido a indagação com vocês. A dúvida é pertinente e diz respeito a veículos de divulgação como o Sedativo.  O que me faz questionar, enquanto olho para o meu próprio umbigo: qual é a validade, afinal, de ser manter um blog sobre música?

Beni, numa rápida apresentação, é dono do selo Psicotronica, que já lançou artistas como Picassos Falsos, Toni Platão e Júlia Debasse, além de ser um dos fundadores do Kid Abelha.

beni

***

Caríssimos,

Alguns meses atrás ,eu contribui  para superlotação das suas caixas postais com um email onde eu saudava a contratação pela EMI do Douglas Merrill da Google, para a vice-presidência da gravadora inglesa.

Ontem [26 de março] o novo chefão da EMI , um executivo italiano que fez carreira vendendo produtos de limpeza, anunciou a demissão do sujeito, depois de menos de um ano de casa.

Na ocasião, me pareceu  que a contratação de um ex-Google pela menor das “majors”, era um sinal de que finalmente elas se renderiam ao inevitável. Quis acreditar que finalmente a indústria fonográfia começaria a se mover na direção de um novo modelo de negócio  adequado a realidade da vida digital.

Puro otimismo da minha parte.

No último ano ficou cada vez mais claro que isso não vai acontecer. A estratégia das grandes é cada vez mais se concentrar no que ainda resta de mercado para produtos físicos (CDs),  ao mesmo tempo em que, sem nenhuma competência, tentam ingressar no mercado de shows.  Ou seja, caminham à passos largos para a irrelevância.

Só as grandes gravadoras tinham o poder de tentar fazer uma transição relativamente ordenada para um novo mercado de música digital. Talvez elas não tivessem na prática esse poder, talvez lhes tenha faltado a coragem de dar um salto no escuro, mas o certo é que o momento onde a sobrevivência era possível já passou. Agora resta apenas uma lenta morte por inanição.

Lamento este fim melancólico. Não porque eu tivesse algum apreço especial pelo antigo modelo, mas porque o desmonte da indústria como conhecemos deixa uma grande lacuna para o público consumidor de música.

Por incrível que hoje isso possa parecer, as gravadoras em outros tempos já  prestaram um relevante serviço para a música. O serviço que em outras artes se chama curadoria. Era nos departamentos artísticos de gravadoras que se fazia curadoria de música popular.

Mais do que o compromisso de investimento de uma empresa, assinar contrato com uma gravadora significava para um artista novo a aprovação do seu trabalho por alguém que entendia do mercado de música. O contrato com a gravadora abria as portas da mídia, mobilizava os empresários, era uma senha para ser levado à sério.

Com a democratização da gravação digital , mais do que nunca artistas precisam da validação de um curador para se destacar do meio da multidão de uma produção desenfreada.

Hoje temos blogs, redes sociais, serviços de “streaming”, uma série infindável e crescente de meios de ouvir música, mas a questão é :

Quem vai dizer ao público o que merece ser ouvido?

saudações musicais,

Beni

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One Response to “Fim de jogo”


  1. […] Por André Mansur […]


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