Todo o desconforto e o afeto do Mombojó

20/07/2010

O Mombojó tinha vários indícios de que surgiria com um trabalho mediano em 2010. Siga as pistas comigo: a banda lançou um segundo disco apenas bom (Homem Espuma, 2006), depois de uma excelente e promissora estréia (Nadadenovo, 2004); saiu de uma gravadora e voltou à labuta independente; se confrontou com a morte prematura de um integrante; como se não bastasse o desfalque, um dos principais compositores da banda pulou fora poucos meses depois; já estava há 4 anos sem um trabalho novo, tempo demais para os dias amnésicos em que vivemos… enfim, as expectativas não eram muito promissoras.

Mas eis que surge o surpreendente “Amigo do Tempo”, um disco fantástico, bem amarrado melodiosamente, rico em nuances, onde o Mombojó sai vitorioso na busca por timbres memoráveis. Se antes a banda possuía boas idéias nem sempre bem alocadas, desta vez a produção do disco foi impecável, com cada instrumento no lugar certo, na medida certa. E por mais que isso tenha se tornado um lugar-comum, o disco ganha corpo a cada audição.

Baixe o disco aqui

O clima intimista, que gera uma sensação de aparente desespero controlado ainda está lá, só que de uma forma mais sóbria e bem resolvida que nos discos anteriores, onde o denso e o leve caminham lado a lado, sem que um se sobreponha ao outro por mais de um minuto. “Amigo do Tempo” nos coloca numa gangorra sinistra de desconforto e afeto.

Um desconforto agradável e um afeto receoso, alerto.

Momento leve com “Papapa”, lançado há poucos dias: música foda, clipe idem

Ainda impactado com essa pequena obra prima da música brasileira contemporânea, conversei rapidamente com o tecladista Chiquinho, que falou ao Sedativo sobre o novo disco, o tempo  e sushis.

*****

Sedativo – Vocês passaram por duas baixas na banda e não estão mais com uma gravadora. Foi difícil compor este disco?

Chiquinho – Compor, nem tanto. Eu diria que a maior dificuldade foi na organização e no planejamento de todo o processo. É sempre mais difícil planejar tudo sem muita grana.

Sedativo – O tempo é uma palavra recorrente no trabalho de vocês. Qual a importância dele para a obra do Mombojó?

Chiquinho – Nesse ultimo trabalho tivemos que aprender a ter muita paciência e lidar com muita tranquilidade em relação ao tempo. Tínhamos uma pressão enorme de lançar um outro disco pra nos mantermos vivos. Porém, sem muito dinheiro, tivemos que ir aos poucos, fazendo shows, juntando, pra ir fazendo as coisas do jeito que a gente queria.

Sedativo – Foram quatro anos sem lançar um disco. Isso, hoje em dia, gera esquecimento e desinteresse. Mas ainda assim vocês conseguiram manter as pessoas interessadas. Qual é a fórmula?

Chiquinho – Apostamos muito na ideia de manter nossos laços cada vez mais estreitos com o nosso público. É sempre bom alimentar o site, trocar ideia, tentando fazer com que as pessoas queiram saber o que a gente anda fazendo, ou que queira consumir cada vez mais Mombojó.

Chiquinho, Vicente Machado, Marcelo Machado, Samuel e Felipe

Sedativo – Vocês já estão em São Paulo há alguns anos. De que forma essa mudança refletiu no trabalho da banda?

Chiquinho – Vivemos indo e vindo à São Paulo há uns 5 anos, pelo menos. Mas há quase 2 anos que deixamos de importunar nossos amigos anfitriões paulistas e passamos a pagar nossos alugueis! hehehe. São Paulo nos deu uma dinâmica diferente de trabalho, muito mais rápida e diversificada.

Sedativo – A Karina Buhr foi editora convidada da revista TPM há poucos meses e disse uma coisa em seu editorial que eu sempre questionei: “música do Nordeste é regional e do Sudeste é urbana”. De onde vem essa distorção? Porque o maracatu é “regional” e o funk carioca e a milonga, não?

Chiquinho – hahahaha Acho que eu prefiro deixar esses rótulos pra quem entende do assunto. Tenho muito orgulho da música e de toda a cultura que vem da minha região! Isso é fato.

Sedativo – O Mombojó já se aventurou no mercado gringo? Dia desses mesmo, enquanto assistia a um vídeo de vocês no youtube, li um comentário de um gringo dizendo algo como “não estou entendendo o que ele diz, mas gosto disso”.

Chiquinho – Fizemos alguns poucos shows pela Europa, mas nada muito significante, ainda. Esperamos poder trabalhar mais esse aspecto a partir de agora. Sempre recebemos mensagens de gente de fora do pais. Diria que a meta maior do Mombojó é tocar no Japão!

Sedativo – Que história é essa de vocês terem virado sushi em Recife? (rs)

Chiquinho – Fomos homenageados por um restaurante japonês de Recife chamado Sumo. Eles Fizeram um prato chamado uramaki mombojó. É um sushi enrolado com o arroz por fora, coberto com gergelim torrado. A alga marinha fica por dentro, junto ao recheio de atum fresco, ova de massago, raspas de limão, leve toque de wassabi (raiz forte) e shoyu cítrico. Que beleza, hen!? Hehehe

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2 Responses to “Todo o desconforto e o afeto do Mombojó”

  1. José Carlos Souza Jr Says:

    Bom ver o Mombojó se renovando. Altos e baixos são normais na carreira de qualquer artista. O importante é manter o frescor e a criatividade. Belo trabalho!

  2. André Mansur Says:

    O Mombojó fez um belíssimo trabalho, meu amigo. Para mim foi o disco nacional do ano. Até agora, naturalmente.


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