Livros demais?

03/08/2010

Estive no fim de semana numa livraria e, incrivelmente, resisti com bravura à compra de mais um livro.  Se por um lado sair de lá com uma sacola nas mãos sempre me trouxe alegria, por outro, ao chegar em casa, olhar a estante repleta de livros que ainda não li me causa uma espécie de auto embaraço e uma leve pontada de culpa. Saí da livraria feliz com o drible que me dei e ao mesmo tempo com uma sensação de vazio  — emocional, intelectual etc.,  menos financeiro.

Mas, afinal, por que agimos assim? Por que gastamos grana com livros quando ainda temos  uma pilha a ser lida? O que nos leva a comprarmos livros numa quantidade desproporcional a sua leitura?

Mandei essas indagações para alguns amigos e conhecidos. Eis as respostas:

Cecília Giannetti (escritora)

Acho que muita gente que tem na estante mais livros não-lidos do que lidos (e segue aumentando o estoque) faz isso porque vive em dois tempos: um é o tempo mágico, realidade alternativa em que todos os dias são feriado num local onde não há internet, telefones nem tv, e o dono dos livros imagina que acontece num futuro próximo, quando o destino se encarregará de dar-lhe um prêmio lotérico, uma herança, e/ou a convicção de que deve se manter desempregado para que possa se dedicar inteiramente à leitura.

O outro tempo é o tempo real, que é o único que existe mesmo. É um tempo mesquinho em que o dono dos livros de fato pode se dedicar à leitura do trecho de texto que couber no trajeto de metrô ou ônibus ou num intervalo de almoço etc.

Mariana Newlands (designer)

Porque os livros que (ainda) não lemos mas que pretendemos ler dizem tanto sobre nosso momento, desejo e gosto como os livros que já lemos – é preciso tê-los por perto desde a primeira vontade.

Luiz Biajoni (escritor)

Na verdade, acho que poucas pessoas compram livros. Boa parte dessas pessoas compra para dar de presente. Uma parcela muito, muito pequena compra mais livros do que consegue ler. O problema é que essas pessoas se relacionam com pessoas parecidas, pois têm afinidade com elas. Assim, acham que existe mais gente assim do que existe, na verdade.

Pessoas como nós, que compram mais livros do que conseguem ler são, de fato, quase uma raridade. Centenas de degraus abaixo, por exemplo, das pessoas que ouvem funk. E nós fazemos isso de comprar mais livros do que conseguimos ler pois somos possessivos e queremos ter o livro ao nosso alcance, nem que seja apenas para admira-lo no nosso momento. E também para que possamos continuar fazendo parte desse grupinho elitista e narcisista chamado “pessoas que compram mais livros do que conseguem ler”.

Maurício Gouveia (dono do sebo Baratos da Ribeiro)

Porque de compromissos já bastam aqueles a que a vida profissional, familiar e amorosa nos impõem. Nossa curiosidade costuma ter humor volúvel e pender ora para um assunto, ora para outro. Graças ao bom Deus! Não se deve lutar contra isso. Uma biblioteca é um mapa dos interesses que o dono já teve, mas não se deve cobrar dele que tenha tido seriedade nem profundidade em todas as suas investigações. Eu costumo inclusive abandonar, sem culpa ou piedade, leituras pela metade – na verdade à vezes bastam algumas páginas.

Andrea del Fuego (escritora)

Para colocar em ordem os desejos, os livros ainda não lidos vão sendo reorganizados de tempos em tempos, subindo e descendo na hierarquia. Alguns terão a leitura adiantada, outros jamais serão abertos.

Dante Sasso (tradutor)

Além de ser um “fetiche” para muitos, o fato de comprar livros em uma quantidade maior do que somos capazes de lê-los se justifica como uma espécie de “resguardo” à cultura, já que o livro é o objeto que melhor representa esse elemento abstrato. Comprar livros, independentemente se você vai ou não abri-los, ainda funciona como uma perpetuação – inconsciente, talvez – do antigo hábito de difundir o conhecimento, especialmente nessa época onde, muitas vezes, a mera informação adquire mais importância do que o verdadeiro saber.

Crib Tanaka (escritora)

1- Porque, para quem ama ler, sentir o cheiro dos livros já é um convite à compra.

2- Porque a sensação de embarcar em uma história paralela à sua, e aprender um pouco sobre a vida e sobre a morte, em algumas páginas, é sedutora.

3- Porque poder levar capítulos embaixo do braço é o máximo da portabilidade.

4- Porque a idéia de que a cultura pode ser comprada é muito sedutora.

5- Porque o consumismo faz parte do capitalismo selvagem, onde vivo imersa.

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15 Responses to “Livros demais?”

  1. aiaiai Says:

    hoje eu compro mais livros do que consigo ler, mas já houve um tempo em que lia mais livros do que conseguia comprar. Tinha tempo e não tinha dinheiro, então, vivia de livros de biblioteca ou que pegava emprestado com amigos ou mesmo ganhava de amigos que sabiam que meu maior prazer era ler.
    Hoje, ao contrário, tenho mais dinheiro e menos tempo, mais desejos de ler do que intervalos para fazê-lo…mas, não me arrependo. Sei que eles são necessários, que um dia vou ler.

    Eu sou mais ou menos organizada, vou comprando e vou lendo, deixando os não lidos sempre mais a mão…resistindo a tentação de reler alguns outros que há tempos não folheio…

    De um ano para cá, no entando, sinto que estou próxima de começar a ter um problema. Além de comprar comecei a colecionar livros que baixo em pdf da internet. Estão todos lá na pasta “livros”. Ou seja, a acumulação de leitura está tomando proporções internéticas absurdas kkkkkkkkkkkkkk

    • André Mansur Says:

      Também sou organizado — ou melhor, sistemático — com minhas leituras mas devo te confessar que olho para certos livros e penso: “será que algum diria lerei MESMO isso?”. A biografia de Yitzhak Rabin comprada há 2 anos é um só exemplo que posso te dar agora, sem pensar muito.

      • aiaiai Says:

        Cara, esse seu exemplo me fez rir muito. Você tem razão, sempre tem uns exageros, né!

  2. brunna Says:

    precisei comentar. estava pensando nisso essa semana. comprei um livro há 15 dias que não conseguo sair da 100a página! não porque não o ame, mas porque não tenho tempo pra me dedicar a ele! :/

    lindas todas as palavras!

    beijos!

    • André Mansur Says:

      Odeio ter que admitir isso, Brunna, mas todas as noites antes de dormir eu faço uma listinha das tarefas do dia seguinte, incluindo momento de leitura, quando é o caso.

      Vida regrada é um pé no saco, sem dúvida (às vezes sinto que vivo numa enorme planilha de excel), mas tem sido útil para mim.

      bj, volte sempre.

  3. sabrina Says:

    eu já cheguei a comprar 30 livros de uma só vez. e até agora, na minha condição de estudante de pré-vestibular, não li nenhum deles 😦

    • André Mansur Says:

      Sabrina, com todo respeito, se eu tivesse grana suficiente pra comprar 30 livros de uma só vez, eu nem cogitaria me debruçar sobre um. ; )

      • sabrina Says:

        eu tô pagando em 9 vezes!! tenho crédito na praça…

      • André Mansur Says:

        Poxa, Sabrina, divulgue o contato deste seu livreiro!

        : )

        bj

  4. Marcos Says:

    Porque comprar livros é um statement.

    Quando você compra “The complete Sherlock Homes Stories” como eu fiz outro dia, sabendo que não tem a menor probabilidade de começar a ler aquilo em menos de dois anos, na verdade está reafirmando o seu pacto com a comunidade (livreiros, editores, outros leitores). E também dizendo a essa comunidade: “acho que esse é um livro que vale a pena ser comprado”.

    Num grau menor, você quer que seus amigos vejam coisas legais na sua estante.
    (Eu acabei de me mudar e ainda estou sem estante. Agonia de saber que todos os meus livros, lidos ou não, estão no limbo dos caixotes.)

    • André Mansur Says:

      Acredito que seja um pouco disso também, Marcos. Mas acho que a carga maior, o impulso que nos move de verdade, venha principalmente de fatores internos, como a possessividade, por exemplo.

      E de alguma forma, quando vc compra determinado livro fica um diabinho falando ao pé do ouvido: “ok, este já foi, tá dominado, qual o próximo assunto?”

      “Não foi nada! Vc nem leu a introdução”, diz a anjinho no outro ombro.

      : )

      • Marcos Says:

        Tem outra coisa. Quando você compra um golden retriever, você compra um estilo de vida que inclui corridas num sábado de sol por um imenso jardim gramado. Mesmo que você não tenha um jardim gramado e trabalhe todos os sábados.

        Quando você compra “Guerra e paz”, você dá uma satisfação mínima ao seu desejo de ter tempo para ler “Guerra e paz”.

      • André Mansur Says:

        Cara, curioso vc citar justamente este livro. Aqui em casa Guerra e Paz é o livro que serve de base para o DVD player do quarto — ele precisava ficar um pouco mais alto para o fio chegar até a TV.

        Nunca virei uma página dele (é uma edição luxuosa, com um box embalando dois volumes) e, juro pra vc, de tanto olhar pra ele que eu tive a idéia do post.

  5. zema ribeiro Says:

    tou com 28 anos e compro mais livros do que consigo ler por 1) ocasião (aquele livro interessante barato num sebo); 2) montar a biblioteca para a aposentadoria (sei lá quando isso vai se dar, mas um dia eu serei um velhinho de pijama e óculos, podendo ler o tanto quanto gostaria, ao som de chorinho). ahahah… abração!


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